Outono de 2009
Minhas pálpebras começam a anoitecer. Já é tarde. A quarta-feira já chegou. Gosto de te escrever nessa sonolência que me leva a um estado de adesão às confissões. O sono nos torna puros como as crianças. Mas nem eu nem você podemos nos dar ao luxo de nos considerarmos puros. E nossa infância esconde-se agora no crepúsculo dos nossos dias. Não pretendo me desculpar pela demora em te escrever. Você demorou muito mais em outras ocasiões. E demora, Tibério, quase sempre é prenúncio de esvaziamento, indiferença, desistência. E não foi isso que você me fez passar e sentir inúmeras vezes, Tibério?
Ainda está fumando cachimbo? Ainda senta-se diante da taça de vinho e da mesa da escrivaninha como quem reverencia a própria existência? Deus, quantas vezes fiquei eu a te esperar em silêncio do outro lado do corredor. Quantas vezes não sacralizei aquele momento que era só seu e do vinho e seus livros e escrivaninha e deitei-me encolhida debaixo dos lençóis tentando me lembrar como se fazia uma prece. Tentando distrair o frio que assola os ossos na escuridão da tortura. Porque o pior tipo de tortura, Tibério, é aquele que silencia. Que não traz respostas. Que demora a nos mostrar a face de Hades.
Na última carta que você me enviou pensei ter lido a palavra arrependimento? Você sequer fez uso dos seus conhecidos emissários cifrados: termos científicos, alusões à psicanálise e navalhas de cinismo cortando minha carne. Foi direto, claro, certeiro. Perdão, Martina!Como nunca esperara. “Demasiado tarde”, pois não. Lembra disso, Tibério? Você me emprestou o livro Ana Terra. Eu tinha 17. Havia essa frase lá. E ainda nem sonhávamos que um dia caminharíamos juntos pelas terras férteis da paixão e da loucura. Estrada que se encerrou em deserto.
Durante tantos anos, minha vida fora pura energia e você o fio condutor. Literalmente a vida por um fio. Agora, estamos velhos Tibério. Nossos corpos represam temperança porque já não conseguem sustentar arrebatamentos. Mas minhas lembranças permanecem intactas. E esse é o meu fardo. Jamais esquecer. Isso a velhice não me presenteou: a miséria da carne se intimidando diante da vastidão da memória. Antes pudesse esquecer. Talvez viesse o perdão. Mas se ainda me lembrasse ou me importasse com preces, saberia que a consumição do perdão só acontece na inocência.
Hoje não dormirei com pílulas. Tampouco me importarei se não dormirei. Minhas pálpebras pesam pelas lembranças. Agora posso confessar. Faz anos que não sei o que é dormir. Talvez a última vez em que dormi realmente fora naquela noite depois que você me trouxe do hospital. No seu costumeiro silêncio, regado a jazz e cheiro de cachimbo. Eu não chorei, você lembra? Naquela noite eu não queria despertar nem mesmo dos pesadelos. Era como se eles me fossem mais familiares que nossos muitos anos de casamento regado a distância e cheiro de chuva.
Tibério, moram em mim certas visões e vozes que eu não consigo apagar. Tenho mais abismos que flores. “Mãos mágicas”. “Sereia dos beija-flores”. Você me chamava assim, referindo-se à minha destreza em cultivar plantas e borboletas no jardim. E eu acreditava. Agora, às vezes, no afã de encontrar conforto em alguns segundos de lucidez, de despertar da angústia dos conflitos, imagino que fomos num só o encontro e o desencontro. O desejo e o deserto. A culpa e a redenção. A libertação e a descoberta do escuro.
Tibério não podia ter sido diferente?
Faço isso não por nostalgia. Mas por vingança mesmo. Esse tipo de pergunta você jamais esteve pronto para responder não é? Quero desesperadamente conhecer Deus. Depois de velha quero o inatingível.Rita já me deu a resposta. Ela disse que eu não sou vazia. Nosso filho é que nasceu para dentro.
Ainda está fumando cachimbo? Ainda senta-se diante da taça de vinho e da mesa da escrivaninha como quem reverencia a própria existência? Deus, quantas vezes fiquei eu a te esperar em silêncio do outro lado do corredor. Quantas vezes não sacralizei aquele momento que era só seu e do vinho e seus livros e escrivaninha e deitei-me encolhida debaixo dos lençóis tentando me lembrar como se fazia uma prece. Tentando distrair o frio que assola os ossos na escuridão da tortura. Porque o pior tipo de tortura, Tibério, é aquele que silencia. Que não traz respostas. Que demora a nos mostrar a face de Hades.
Na última carta que você me enviou pensei ter lido a palavra arrependimento? Você sequer fez uso dos seus conhecidos emissários cifrados: termos científicos, alusões à psicanálise e navalhas de cinismo cortando minha carne. Foi direto, claro, certeiro. Perdão, Martina!Como nunca esperara. “Demasiado tarde”, pois não. Lembra disso, Tibério? Você me emprestou o livro Ana Terra. Eu tinha 17. Havia essa frase lá. E ainda nem sonhávamos que um dia caminharíamos juntos pelas terras férteis da paixão e da loucura. Estrada que se encerrou em deserto.
Durante tantos anos, minha vida fora pura energia e você o fio condutor. Literalmente a vida por um fio. Agora, estamos velhos Tibério. Nossos corpos represam temperança porque já não conseguem sustentar arrebatamentos. Mas minhas lembranças permanecem intactas. E esse é o meu fardo. Jamais esquecer. Isso a velhice não me presenteou: a miséria da carne se intimidando diante da vastidão da memória. Antes pudesse esquecer. Talvez viesse o perdão. Mas se ainda me lembrasse ou me importasse com preces, saberia que a consumição do perdão só acontece na inocência.
Hoje não dormirei com pílulas. Tampouco me importarei se não dormirei. Minhas pálpebras pesam pelas lembranças. Agora posso confessar. Faz anos que não sei o que é dormir. Talvez a última vez em que dormi realmente fora naquela noite depois que você me trouxe do hospital. No seu costumeiro silêncio, regado a jazz e cheiro de cachimbo. Eu não chorei, você lembra? Naquela noite eu não queria despertar nem mesmo dos pesadelos. Era como se eles me fossem mais familiares que nossos muitos anos de casamento regado a distância e cheiro de chuva.
Tibério, moram em mim certas visões e vozes que eu não consigo apagar. Tenho mais abismos que flores. “Mãos mágicas”. “Sereia dos beija-flores”. Você me chamava assim, referindo-se à minha destreza em cultivar plantas e borboletas no jardim. E eu acreditava. Agora, às vezes, no afã de encontrar conforto em alguns segundos de lucidez, de despertar da angústia dos conflitos, imagino que fomos num só o encontro e o desencontro. O desejo e o deserto. A culpa e a redenção. A libertação e a descoberta do escuro.
Tibério não podia ter sido diferente?
Faço isso não por nostalgia. Mas por vingança mesmo. Esse tipo de pergunta você jamais esteve pronto para responder não é? Quero desesperadamente conhecer Deus. Depois de velha quero o inatingível.Rita já me deu a resposta. Ela disse que eu não sou vazia. Nosso filho é que nasceu para dentro.
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